"Recordação boba; recordação boa…"

São 01:45 da madrugada e eu tenho aula de Ética Geral amanhã às 8 horas, por isso fui dormir cedo. Entretanto, por algum motivo, eu não consigo dormir: com certeza é pelo turbilhão de pensamentos que rondam minha cabeça… Muitas recordações, muitos futuros que eu sonho, muitos pensamentos sobre coisas a fazer… Então, eis que nesse turbilhão de coisas, uma memória em particular me veio à cabeça. Uma lembrança muito simples, porém muito doce e feliz, que há muitos anos eu não me recordava, me veio à mente, e eu senti a necessidade de escrever sobre e eternizá-la nas páginas digitais de meu diário.

Eu tinha aproximadamente 6 anos de idade. Eu estudava em um colégio particular de minha cidadezinha, mas estava indo muito mal nos estudos. Eu deveria estar terminando o pré, não me recordo; no entanto, o ensino era rígido, e eu estava indo mal. As professoras não colaboravam muito com minha dificuldade, então mamãe foi quem correu atrás de descobrir o que estava acontecendo comigo. “Por que você está com problemas em estudar, Hannah?”, ela simplesmente perguntou-me, “eu não sei, eu sento na sala, a professora passa matéria no quadro, mas eu não vejo nada”. Daí para o consultório oftalmológico foi um pulo. Diagnóstico de miopia e astigmatismo, receita e atenção muito grandes da médica que viria a acompanhar meus problemas de visão até a minha adolescência (e só não permaneceu como minha médica até hoje por que ela se mudou para o Rio de Janeiro, doutora Renata, uma fofa).
Realizei os exames, era tudo muito divertido pruma criança, todos aqueles aparelhos engraçados que eu tinha que me sentar, era divertido – exceto o “colírio cor de marca-texto”, era um inferno, queimava horrores os meus olhos (inclusive, uma vez, eu já maiorzinha, fui fazer meu exame de rotina, e um bebê ia fazer no horário antes do meu, a enfermeira aplicou o colírio e ele começou a berrar horrores, “o que está acontecendo?”, a mãe perguntava, “deve ser só incomodo pela sensação de pingar colírio” respondeu a enfermeira, “na verdade, esse anestésico arde demais, eu uso desde os 6 anos, e a ardência é muito grande mesmo”, “sério que arde? Não sabia”, respondeu a enfermeira. Enfim…). “Eu vou usar óculos”, minha ficha caiu, uns dias após a consulta e minha ida à Secretaria de Saúde para fazer as lentes e escolher a armação. Claro que meu isso repercutiu até no colégio, “usar óculos é horrível, você vai ver uma formiguinha pequenininha deeeesse tamanhão”, disse Victor, um coleguinha ruivo, esticando os braços. Pensando agora, era uma coisa tão simples, mas que me assustou um pouco na época.
Então, o dia chegou: meus óculos estavam prontos. Papai iria trazê-los depois do serviço. É claro que eu estava ansiosa! Eu era uma criança de 6 anos do interior, isso era um grande acontecimento para mim. 17 horas; barulho do carro do papai; ele sobe para casa, e eu estou na varanda esperando ele, ansiosa. Ele faz suspense daquele jeito cômico dele, e me mostra a capinha dos óculos, “papai trouxe a sua joia”, disse. Lembro-me de ter batido palmas de excitação. Então, ali na varanda mesmo, ele abriu a caixinha bem devagarzinho, então a “joia” se revelada. “Tandaaan”, ele disse, me entregando minha primeira bengala em mãos. Eu dava pulos de alegria: aquilo era extasiante! Coloquei os óculos em meu rosto… uau! Como era diferente enxergar as coisas! No início eu via buracos no chão, demorei a me adaptar a isso. Abracei papai e agradeci: eu estava realmente emocionada. A armação nem era cara – na verdade, fora de graça, pois a Secretaria de Saúde fazia aquelas armações gratuitas, que eram grossas e feitas de um material que parecia um acrílico bem grosso, não sei ao certo. A minha era transparente com nuances pretas. Era grossa, robusta, assim como a lente, que já era significativamente espessa. Quem disse que eu ligava? Quem disse que elas armações fininhas dos “óculos de leitura” dos meus coleguinhas me causavam inveja? Eu me amarrava nos meus óculos!
Nossa, lembro-me nitidamente desse momento, inclusive da emoção que foi. Desse momento em diante, nunca mais passei um dia sem usar minha bengala – como chamava minha oftalmologista. Recordação simples; recordação boba; mas recordação feliz e boa…
Anúncios

Vamos conversar! Deixe seu comentário...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s